Abril 21, 2024

Já não se lembra, com exactidão, o dia em que, aos 12 aninhos, começou a fumar cigarros, liamba e crack, numa altura que usava, igualmente, álcool. Sabe apenas que a primeira e tantas vezes que usou drogas foi por influência de amigas com idade mais avançada.

Hoje, perto dos 14 anos, vencido que está o vício, Joana Inês procura esquecer as amarguras vividas no mundo das drogas durante cerca de 12 meses difíceis. Apesar do pouco tempo que esteve dependente de substâncias psicotrópicas, a adolescente conta que já caiu na prostituição e fez uma série de abortos.

Por agora, olha para trás apenas às lições que o passado lhe propulsionou e nunca mais quer voltar àquele tempo, em que, no Morro Bento, a menina obediente, conheceu a caminho da escola umas moças que a levaram a experimentar bebidas e drogas.

“No início, era só para experimentar. Gostei e, quando dei por mim, já era viciada. Aumentei as doses, ao ponto de fugir de casa e passar a morar com essas moças”, referiu.

Mais tarde, Joana e amigas passaram a viver na rua e a frequentar casas nocturnas, no bairro Cassenda, onde faziam prostituição. Essa prática as deixava, às vezes, por 30 dias fora de casa. O objectivo era angariar dinheiro para sustentar o vício de drogas.

Esse ciclo foi interrompido um ano depois, quando a mãe, desesperada, recorreu à estação televisiva, com ajuda de familiares, para localizar a menor. 

E, ao achá-la, a família mandou-a para o Centro de Recuperação de Toxicodependentes Cristo no Coração, no bairro Rocha Pinto.

“Aqui há paz, saúde, carinho e somos uma família feliz. Tudo faço para largar esse vício e estou a conseguir”, garantiu a rapariga, que recordou que o consumo de drogas a fazia viajar no mundo de ilusões, onde sonhava ser independente, apesar da pouca idade.

“Muitas vezes, passava o dia a dormir e, por volta das 17 horas, saía com as amigas para se divertir e regressar na manhã seguinte”, salientou. Por causa disso, quando chegou ao centro, estava magra, com o tom da pele muito escura e muito pálida.

Actualmente, já sente o alívio e tem certeza de que as coisas estão a mudar para melhor. Em pouco mais de dois meses de recuperação, a jovem afirma ter o aspecto físico melhorado e alimentação regrada a deixa mais bem nutrida e permite espalhar o brilho no olhar.

O sorriso solto várias vezes ao longo da conversa com a equipa de reportagem, para ela, era sinal evidente de quem se vê livre do sofrimento no mundo das drogas. “E as minhas amigas também querem se libertar, por isso, lutam para vir aqui e abandonarem esse maldito vício que só causa destruição. Mas, os pais delas não têm condições financeiras”.

Enquanto isso, as jovens continuam nas drogas e no alcoolismo, vícios que têm empurrado muitos jovens à autodestruição, delinquência, prostituição e terem filhos indesejados, como explicou o reverendo Arnaldo Kasssumba, presidente da Associação Cristo no Coração, que cuida de pessoas toxicodependentes.


Problemas sociais a levam ao vício

Aos 15 anos, Claudete Isenguele começou a fumar e a consumir álcool, quando frequentava festas em companhia de amigas. A menina vivia com a avó, no Morro Bento, mas a morte dessa ficou desorientada.

Uma vez, viu o tio a fumar liamba e decidiu experimentar. Desde essa altura, passou a ter vontades incontroláveis em usar essa substância psicotrópica.

Em função desse descontrolo, acabou grávida de um jovem, que passou, igualmente, a consumir drogas. Claudete perdeu nas ruas, durante cerca de quatro anos.

Há três meses no Centro de Reabilitação de Toxicodependentes Cristo no Coração, a jovem, de 19 anos, procura, a todo o custo, largar o vício. “Hoje, quero sair completamente desse mundo e cuidar melhor da minha filha. Já não sinto aquela grande vontade de beber ou de fumar nem daquelas amizades que quase me destruíram”, salientou.

Durante a conversa, a jovem deixou claro que a separação terá contribuído em grande medida para que ela, momentos depois sem avó por perto, caísse no mundo do álcool e, depois, para as drogas.


 Vício que origina outros vícios

Deslandes Gaspar é menor de 14 anos e vive no Bairro Huambo com os pais. Começou a usar liamba e diazepam,  práticas que a levaram a furtar bens de casa.

Quando fumasse liamba, o garoto tornava bastante agressivo diante dos conselhos dos pais. Pegava nas coisas da família, inicialmente, e as vendia para comprar droga.

Com o tempo, praticava roubos fora de casa. Telefones e dinheiro eram o seu foco. Felizmente, contou que o internamento no centro o faz ver que estava num mundo da perdição. E, agora, sente-se uma pessoa em renovação!

“Quando eu sair do centro, espero criar condições para sair do bairro, porque foi ali onde estavam as minhas más influências. Não quero ter recaída e voltar a me drogar”, realçou.

Em relação a Deslandes, o reverendo Arnaldo Kassumba considerou que as drogas o levaram a fazer parte de grupos de marginais, que lutavam com catanas e facas, usando violência extrema.

Outro que saiu do Bairro Huambo para parar no centro é Edson Goubel, de 16 anos. O rapaz passou tem uma história praticamente parecida a do amigo Deslandes. Ambos querem agora livrar-se do vício e voltar a estudar.

“Antes de estar aqui, já passei por situações que quase me levaram á morte. Fui apanhado a roubar e apanhei muita surra”, explicou, para adiantar que não recusou a entrar para o centro, onde está internado desde Setembro do ano passado.

Envolvido na terapia, o rapaz frequenta os cultos religiosos, participa de palestras e aprende mais sobre as consequências das drogas. Por isso, está seguro de que tem tudo para não voltar a fumar nem beber.


Mal afecta vários estratos sociais

No centro, estão internados mais de 70 jovens. Cada um com a sua história, mas que acabam por desembocar nos mesmos problemas: drogas, bebidas alcoólicas por excesso e prostituição.

Entre o grupo de internados, estão estudantes, músicos (muitos vindos do exterior do país), funcionários públicos, desempregados, entre outros, enumerou o presidente da Associação de Jovens Cristo no Coração.

Muitos desses indivíduos caíram no vício do álcool, influenciados pela presença de incontáveis casas de venda de bebidas nos bairros de Luanda.

As ruas 12 de Julho (no Sambizanga) e a famosa Dira (Zango 3), são palcos de dezenas de casas e barracas de bebidas alcoólicas, onde se regista uma grande adesão de jovens, entre homens, mulheres e adolescentes.

Por exemplo, naquela sexta-feira, apesar da chuva que se abateu na zona, na rua da Dira, por volta das 21h00, o movimento era bastante agitado. A venda de cerveja, whisky, vinho, pincho e tabaco tomaram conta do lugar.


A experiência da salvação

O centro “Cristo no Coração”, fundado a 4 de Abril de 2001, para trabalhar na reabilitação de toxicodependentes e alcoólatras, um projecto nascido da experiência de vida do seu responsável máximo, que era consumidor de drogas.

No ano passado, o centro, que funcionava, inicialmente, no Sambizanga, segundo o reverendo e presidente Arnaldo Kassumba, atendeu mais de 700 jovens com problemas drogas (como cocaína, crack e liamba) e alcoolismo.

O reverendo salientou que só de 1 a 10 de Janeiro de 2023, a instituição já recebeu um total de 15 jovens, que foram obrigados a internar. Os mesmos tinham sido levados pela Polícia Nacional e por familiares.

O reverendo Arnaldo Kassumba, com história de vida ligada ao Hospital Psiquiátrico de Luanda e na recuperação de jovens perdidos no mundo das drogas, explicou que, clinicamente, a droga é uma substância que interfere em todos os órgãos do organismo, com destaque para o sistema nervoso central, coração e pulmão.

“O pulmão, por ser por intermédio desse órgão que se respira, quando se inala o fumo, se começa a ter problemas da nicotina (carvão)”, disse, para avançar que em relação ao coração há um aumento dos batimentos cardíacos.

Em função disso, acrescentou, os neurotransmissores deixam de funcionar de forma coordenada e os vasos sanguíneos ficam dilatados, por causa da pressão sanguínea, o que origina delírios, alucinações e outros problemas de saúde.


Bebedeira excessiva é uma patologia

O reverendo salientou que a droga provoca alterações no organismo, desde os batimentos cardíacos, subida da pressão arterial, movimenta os neurotransmissores e traduz uma falsa alegria, risos à toa de felicidade.

Em Psiquiatria, referiu, considera-se a embriagues como uma patologia, por ser uma descoordenação do funcionamento normal das células do sistema nervoso central, perdendo o controlo do organismo, trocando a pessoas palavras involuntárias e cambaleando as pernas.

“Caso continue a beber pode se tornar uma patologia declarada”, alertou, para avançar que, no Centro Cristo no Coração, o tempo de recuperação dependente de cada caso. “A toxicodependência é um problema de fórum psiquiátrico”.


Mais de 500 pessoas reinseridas no seio familiar

O centro conseguiu reintegrar no seio familiar, entre 2021 e 2022, mais de 200 pessoas, mas nos últimos anos, a instituição ajudou mais de 500 ex-toxicodependentes a  livrarem-se das drogas.

Depois de curados, muitos ex-internados passaram a ser a madrinhas/padrinhos do centro, disse o reverendo Arnaldo Kassumba.

O responsável agradeceu, por isso, o apoio desses anónimos, mas, também, às entidades governamentais e parlamentares, por terem convivido, durante o Natal, com os pacientes do centro.

Para o reverendo, fora desse apoio, há a necessidade de maior participação das famílias na recuperação dos toxicodependentes. Por exemplo, defendeu que essas pessoas, depois de recuperadas, não mais deveriam frequentar o mesmo bairro, para fugirem à tentação dos amigos do vício e terem recaídas.


SIC diz existir crimes praticados só por força das drogas

Manuel Bento e Vicente Gregório, ambos com 20 anos, estão detidos numa das esquadras de Luanda, por supostamente terem roubado uma motorizada, com recurso à arma de fogo e assaltarem uma residência.

Antes de cometerem a acção, que foi previamente planificada, os dois confessaram ter consumido liamba, seguido de pacotinhos de whisky, para terem coragem.

Já Lubamba Matondo, 30 anos, está detido, por ter supostamente agredido sexualmente uma jovem de 24 anos, no Golfe, por volta das 5h00. Antes do crime de que é suspeito, passou a noite num bar, no Palanca, onde consumiu cerveja e whisky.

Para a prática do crime, Lubamba usou uma faca e ameaçou a vítima e levou-a para um lugar isolado e abusou-a.

O consumo de drogas como liamba e cocaína e de bebidas alcoólicas tem sido um dos principais motivos que levam jovens a enveredar para o mundo do crime, considerou o porta-voz do Serviço de Investigação Criminal (SIC) de Luanda.

O superintendente-chefe Fernando de Carvalho referiu que o alcoolismo e as drogas na juventude provocam comportamentos desviantes, porquanto utilizam esses produtos psicotrópicos no sentido de realizarem acções criminosas.

Informou que muitos, depois de drogados, cometem acções à mão armada, entre as quais assaltos em residências e na via pública, violações sexuais ou agressões físicas no seio familiar.

“Tem corrido muitos casos de reincidência, cometidos por jovem apanhados a cometerem crimes com drogas no organismo”, lamentou Fernando de Carvalho.


Psicólogo destaca danos no organismo  

O psicólogo Emanuel Capita desaconselhou todas as pessoas a consumirem drogas, devido às consequências que provocam para a saúde do ser humano.

Considerou que a maior parte das pessoas que consome bebidas alcoólicas e outras drogas tem o poder de exibir aquilo que, de princípio, estaria fechado, ou seja, ganha coragem para o fazer.

Emanuel Capita sustentou que as drogas criam comportamentos desviantes, entre os quais, a propensão para cometer outros crimes, por se sentirem liberalizadas.

O psicólogo avançou que muitas pessoas que usam, por exemplo, a liamba e outras drogas não têm informação sobre os danos que essas substâncias causam ao organismo, daí que alguns chegam a perder a vida por falta de informação.

“Os jovens cometem muitos crimes drogados e, depois, a Polícia e o SIC os responsabilizam criminalmente, cenários que podem ser evitados, em situação psicológica diferente”, realçou.

Emanuel Capita chamou atenção aos pais e familiares, no sentido de educarem os filhos e a não aguardar pela reeducação, por ser mais cara.


Mais oportunidades de emprego 

Jurelma de Araújo, gestora empresarial, considerou que a globalização e o meio social são factores que influenciam para a ocorrência desses males na sociedade. Realçou que o meio em que se estão inseridos acabam por influenciar os jovens e adultos a terem acesso rápido ao álcool e às drogas.

Por isso, chama a atenção para a família, que tem um papel preponderante neste aspecto. “Quando um pai ou uma mãe manda o filho menor comprar bebida alcoólica está a violar uma regra social”.

Mas, a gestora destacou que as condições sociais, desemprego e o imediatismo concorrem para que os adolescentes e jovens enveredem para as drogas e ao mundo do crime, e algumas meninas para a prostituição.


Morte: uma das consequências

As consequências do uso de drogas podem ser nefastas. Entre essas, a gestora apontou a morte, problemas psicológicos graves, aquisição de doenças sexualmente transmissíveis, abortos provocados por usso excessivo de drogas e loucura.

Para evitar esses distúrbios, Jurelma de Araújo defende maior interação dos pais com os filhos, realçando ser importante para se formarem as bases na sociedade e evitar desvios comportamentais.

Afirmou que o Estado deve criar políticas direccionadas às famílias e à sociedade em geral, para que os jovens tenham mais emprego e outras ocupações. “O crime e a prostituição estão muito associados aos que consomem drogas. E esses prostituem-se e roubam para conseguir valores monetários que sustentem o vício”.

A gestora defendeu a necessidade de se criar condições para que esses jovens tenham acesso ao emprego e à educação, de forma a que obtenham seus rendimentos e deixem de lado o mundo do crime. “Temos, hoje, em dia uma sociedade quase que doente. É preciso melhorar as condições sociais das famílias, sob pena de vermos mais jovens no mundo das drogas e do álcool”, rematou.

JA

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