Fevereiro 29, 2024

O Chefe de Estado defendeu, quarta-feira, em Luanda, a elaboração de políticas públicas voltadas para a cultura de paz, que, mais do que um conceito, sejam encaradas como um princípio a ser inscrito nas estratégias nacionais de desenvolvimento dos países africanos, para a promoção e valorização deste bem.

João Lourenço, que discursava na abertura do 3º Fórum Pan-Africano para a Cultura de Paz, mais conhecido por Bienal de Luanda, referiu que a implementação desta visão deve ser extensiva, também, às famílias, escolas, igrejas, agremiações desportivas, grupos culturais, associações e outras entidades de natureza similar e, tanto quanto possível, divulgado, de forma massiva, pelos órgãos de comunicação social, assim como pelas plataformas digitais, que podem desempenhar um papel construtivo na busca desse desiderato.

“Devemos procurar aceitar o facto de que promover uma cultura de paz implica a valorização do colectivo, estimula o respeito pelas diferenças, consagra a diversidade como fonte de riqueza a proteger e pode agir como um factor impulsionador do reforço da justiça social, da equidade e da inclusão”, destacou o Chefe de Estado.

No entanto, o Presidente João Lourenço sublinhou ser necessário, para uma implementação bem sucedida desta meta, que se coloque foco na questão da inclusão, considerando que se cada cidadão africano se sentir valorizado, em função dos seus conhecimentos, anseios e capacidades, será mais fácil construírem-se sociedades em que todas as vozes sejam escutadas, todas as sensibilidades respeitadas e todos os segmentos sociais levados em consideração.

João Lourenço lembrou que o continente africano é habitado por uma população maioritariamente jovem, que tem um conjunto de aspirações e expectativas quanto ao seu futuro, o qual, destacou, se deve procurar atender, levando sempre em consideração o seu papel de força motriz da mudança, da evolução, do progresso, do desenvolvimento e da construção de sociedades criativas e inovadoras.

Ressaltou que a própria natureza dos jovens tem dinâmicas próprias, gerando, por isso, abordagens e visões diferentes em função de cada grupo geracional. Este facto, prosseguiu o estadista angolano, deve ser, sempre, observado com muita atenção, para que se percebam as necessidades e exigências de cada tempo e sejam, deste modo, encontradas soluções na medida do possível, a fim de evitar tensões sociais e posturas muitas vezes permeáveis a ideias nocivas e a comportamentos sociais e “civicamente” pouco aceitáveis. “Considero, por isso, ser nosso dever acreditar, sem hesitações, na juventude, disponibilizando-lhe oportunidades reais de participação activa na construção das nossas sociedades para solidificar uma cultura de paz duradoura e resiliente, criando espaços de diálogo em que devemos escutá-los, entender as suas ideias e integrar as suas contribuições para permitir-lhes que sejam agentes de mudanças virtuosas”, aclarou.

O Presidente da República disse que a conquista deste desiderato, que admitiu implicar algum esforço, vai permitir preparar os cidadãos aptos para aceitar o confronto de ideias, em lugar de partir para a confrontação na base de ideias divergentes.

O Presidente João Lourenço, que se fez acompanhar neste evento da Primeira-Dama da República, Ana Dias Lourenço, referiu ser nesta perspectiva que atribui uma importância fulcral ao “Diálogo Intergeracional”, que, como salientou, já se tornou na referência central da Bienal, por permitir estabelecer um intercâmbio de ideias e um espaço de diálogo dentro do qual a combinação entre a sabedoria e a experiência dos mais velhos e a energia criativa dos jovens pode ajudar a fazer a passagem suave e tranquila do testemunho de uma geração para outra.

  Aposta séria nos jovens

O estadista angolano, que ostenta, neste momento, o título de Campeão para a Reconciliação e Paz em África, atribuído pela União Africana, alertou que nenhum esforço tendente a consagrar a ideia de que a paz é um bem inegociável da humanidade produzirá os resultados almejados se não for feita uma aposta séria, firme e coerente na educação das pessoas, sobretudo nos jovens, chamando-lhes a intervir neste processo com o sentido de que se está a realizar um dever perante a sociedade, as famílias, as escolas, as igrejas, as agremiações desportivas, os grupos culturais, as associações e outras entidades de natureza similar.

A criação e a consolidação de uma cultura de paz em África, defendeu o Presidente João Lourenço, deve ser um passo fundamental para se estabelecer o clima e as condições essenciais para que os povos e as nações africanas se dediquem, com todo o seu engenho, às tarefas da promoção do progresso e do desenvolvimento.

“Somente por esta via seremos capazes de enfrentar e superar o desafio do combate à pobreza, que é, no fim de tudo, o maior dos problemas do nosso continente e o que nos torna vulneráveis às cobiças e às arbitrariedades que lhes estão subjacentes”, declarou.

Para este problema, João Lourenço apontou como solução a definição acertada de estratégias e programas de desenvolvimento assentes na utilização dos recursos que o continente africano possui, de modo a se criar dinâmicas que vão impulsionar o intercâmbio, a todos os níveis, as trocas comerciais, o aproveitamento dos conhecimentos técnicos e científicos de cada um dos países e regiões, a fim de serem criados factores geradores de crescimento.

“Mesmo tendo a perfeita noção de que estamos diante de uma tarefa complexa, nada nos deve fazer desistir de a levar por diante, porque temos de garantir um futuro promissor e próspero às gerações vindouras, às quais caberá dar continuidade ao trabalho iniciado”, atestou.

Referindo-se às mulheres, o Presidente da República disse já não haver espaço para visões redutoras sobre o lugar delas “nas nossas sociedades”, tendo em conta o papel, cada vez mais actuante, que assumem, com reconhecimento eficaz na execução das suas responsabilidades profissionais, com realce para aquelas que, na condição de mães, podem transformar-se em verdadeiras arquitectas de um mundo de harmonia, de paz, de respeito, de tolerância, de compreensão e de amor.

Por outro lado, o Chefe de Estado disse ser, igualmente, fundamental empreender um esforço “gigantesco” para a protecção dos mercados africanos dos choques externos, fortalecendo-os na base de programas nacionais de desenvolvimento que assentem sobre a “incontornável” necessidade da diversificação da economia, por forma a torná-la mais resiliente, aproveitando o espírito empreendedor dos povos locais.

  Acções viradas para a promoção da paz na região

No quadro das acções levadas a cabo pelo país, para a promoção da paz no continente, o Chefe de Estado recordou que Angola tem procurado desempenhar um papel activo no sentido de contribuir para a resolução dos conflitos em África, com realce na República Democrática do Congo, por acreditar que a perseverança leva a bons resultados.

O Presidente da República disse estar convencido de que deve ser este o espírito a conduzir nas iniciativas a serem desenvolvidas em África, para pôr fim, definitivo, aos conflitos e iniciar-se, sem nenhuma espécie de constrangimento, o processo de desenvolvimento sustentável do continente.

“Por isto mesmo, temos de procurar centrar as nossas acções concertadas entre todos, no envolvimento activo da União Africana, no sentido de colocar o nosso enfoque na busca de uma solução para o conflito que se desenvolve no Sudão e noutras zonas do nosso continente”, apelou o Chefe de Estado, referindo-se, também, ao cenário de instabilidade que se observa em resultado das acções terroristas desencadeadas por grupos armados na região do Sahel e das mudanças inconstitucionais em alguns países da África do Oeste e Central.

O Presidente da República lamentou o facto desta situação nem sempre merecer a mais vigorosa condenação e repulsa, havendo mesmo, como disso, casos em que se confere aos “golpistas” o mesmo tratamento devido aos legítimos detentores do poder, “o que choca com os princípios e valores defendidos pela União Africana”.

João Lourenço ressaltou estar-se, “actualmente”, perante um panorama internacional desolador, em resultado da guerra entre Israel e a Palestina e a que opõe a Rússia à Ucrânia.

Acrescentou que ambas, no seu conjunto ou mesmo isoladamente, constituem uma séria e inequívoca ameaça à segurança internacional e à paz mundial, com todas as consequências que daí derivam na sua dimensão humana, social, económica e política.

Em virtude destes problemas, o estadista angolano afirmou que se ocorre extrair a conclusão de que se impõe, com a máxima urgência, a necessidade de se aperfeiçoarem os mecanismos da governança mundial, de modo a reforçar-se a sua capacidade de prevenção e intervenção e não permitir que as tensões políticas degeneram em confrontação armada de grandes proporções.

  Conflito em Gaza

Comentando o conflito em Gaza, que disse estar a provocar a mutilação e morte de milhares de seres humanos indefesos e inocentes, João Lourenço referiu que a solução para este conflito assenta, “necessariamente”, na criação do Estado Palestino, ao abrigo das várias resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre a matéria. “Penso que a questão que se prende com a cultura de paz e não-violência deve ser encarada de uma forma transversal, de modo que se torne um paradigma para todas as regiões do nosso planeta”, defendeu o estadista angolano.

João Lourenço esclareceu que Angola assumiu a responsabilidade de acolher a Bienal, por ter a clara noção da importância que assume para os países africanos e não só a questão da paz e da convivência pacífica no seio das sociedades de cada um dos países, em particular o continente africano, onde disse ser fundamental fazer-se uma pedagogia permanente, sobretudo junto dos jovens, para a necessidade de defender e preservar a paz, como condição primária para o desenvolvimento económico e social dos seus países.

O Presidente da República recordou que, desde o alcance da Independência e durante três décadas consecutivas, Angola viveu a triste realidade de um conflito armado entre filhos da mesma mãe pátria, que deixou lições “extremamente” úteis, tendo levado ao desarme dos espíritos e a enveredar-se pelo caminho da paz, da reconciliação, da harmonia, do entendimento e da convivência pacífica entre todos, transformando, deste modo, o país num espaço em que se tornou possível a dedicação de todos às tarefas do progresso e do desenvolvimento. Revelou que desde a primeira edição, este Fórum tem-se constituído numa plataforma privilegiada de interacção e reflexão colectiva, empenhada no reconhecimento, na difusão e na valorização dos conceitos, princípios e boas práticas tendentes à construção de um futuro mais pacífico para o continente africano.

O Presidente da República ressaltou que não obstante a evidência de que a diversidade cultural constitui um inegável activo social, a sua desvirtuação pode criar tensões sociais e até mesmo conflitos desnecessários, pelo que o tema deste ano da Bienal coloca o desafio de se forjar novos paradigmas e elevar o respeito pela diferença, como pedra angular na edificação de sociedades cada vez mais imunes à violência.

JA

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