Fevereiro 25, 2024

A história de Angola, um país que esteve fortemente alinhado com a antiga União Soviética e Cuba, revela que o conceito de excelentes relações de cooperação económica entre nações independentes não têm uma definição única, precisa e abrangente que seja válida para todos os tempos.

As relações económicas, que estabelecemos com diferentes países, foram carregadas de conteúdo ao longo do tempo, de acordo com os pensamentos e os valores dominantes, bem como os interesses dos países, pelo que é necessário conhecer a sua evolução para compreender o significado real da recente visita oficial do Presidente João Lourenço aos Estados Unidos da América.

Espanta-me o ambiente de euforia com que muitos celebram este momento, a ponto de alguém vir publicamente afirmar que, com esta visita, estão lançadas as bases para que o nosso país venha a conhecer maior prosperidade económica, melhorar a saúde, mais educação e incomensuráveis oportunidades de negócios para todos os Angolanos e Angolanas. Eu pergunto-me: até que ponto uma visita do nosso Presidente a qualquer país do mundo, se traduz automaticamente em bases para tudo o que se está a propalar?

As mesmas vozes anunciam com júbilo o pronunciamento do Presidente Americano, segundo o qual Angola é o país mais importante de África, e que os Estados Unidos da América vão desenvolver Angola ao ponto dos Angolanos sentirem-se orgulhosos do seu país.

Pessoalmente não gosto da narrativa, segundo a qual devemos esperar que outros povos nos venham desenvolver, quanto muito pode esperar-se que os Estados Unidos da América, ou outra qualquer potência, nos apoiem no entufo de empreendermos medidas capazes e necessárias para libertar, tanto quanto possível, as forças do mercado, promover o fortalecimento das nossas instituições, e consolidar o estado democrático e de direito. Factores cujo fracasso pode ser elemento prejudicial para o desenvolvimento externo directo que tanto procuramos atrair, uma vez que interfere como o bom funcionamento, não apenas dos mecanismos de mercado, mas também do próprio Estado.

Considero positiva a possibilidade de uma nova etapa nas relações de cooperação, entre Angola e qualquer outra potência mundial, desde que tais relações contribuam, igualmente, para promover e fortalecer as instituições democráticas de Angola, ajudar na consolidação do estado democrático e de direito, a paz e a segurança.

Um elemento-chave para determinar a relevância e o conteúdo da cooperação entre Angola e qualquer país do mundo é a concepção das prioridades de desenvolvimento económico que temos. À medida que estas evoluem, os objectivos prosseguidos pela cooperação, entre Angola e o seu parceiro, devem evoluir, e condicionam as modalidades da cooperação.

Determinar quais são essas prioridades, e como foram definidas, é uma das questões centrais e se, de facto, os Estados Unidos da América e Angola estabelecem relações diplomáticas formais em 1993, não podemos nos esquecer de que no passado, o sector da energia esteve sempre no centro das relações angolano-americanas. Não é segredo para ninguém da importância estratégica do petróleo angolano para a política de segurança energética dos EUA.

A nova etapa de cooperação, certamente que não surgiu do nada, mas podemos afirmar que ela é resultado do despertar da preocupação dos Estados Unidos da América com o desenvolvimento do nosso país, como muito se diz por aí?

Longe de qualquer cepticismo doentio ou entusiasmo ingénuo, eu penso que os potenciais benefícios e riscos económicos de uma forte aproximação de Angola a qualquer potência mundial deste calibre devem, sim, ser alvo de muito debate e reflexão, por parte de todos e de todas. Mesmo que não seja fácil obter consensos, não podemos ignorar os impactos negativos e positivos da forte presença de outras potências económicas no nosso País ao longo da nossa história.

A hegemonia das ideias desenvolvimentistas, baseadas no crescimento económico, como objectivo central, e na crença de um crescimento ilimitado a qualquer preço, frustraram muitas expectativas que tínhamos, em relação aos investidores estrangeiros.

As sucessivas mudanças de ênfase, na concepção e agendas de desenvolvimento económico e social que fomos tendo em Angola, serão fundamentais para compreender as modalidades de cooperação postas em prática.

Definitivamente, temos de saber se fora do sector dos petróleos, os Estados Unidos da América pretendem emprestar dinheiro? Vão fazer investimentos específicos ao ponto das suas empresas ou empresários criarem ou adquirirem operações em Angola, com o dinheiro vindo do estrangeiro? Ou simplesmente virão para vender bens e serviços e comprar matérias- primas?

Desde a nossa Independência, as relações de cooperação para o desenvolvimento que estabelecemos com outros povos foram marcadas pela existência da Guerra Fria, que foi decisiva para que determinados países se comprometessem ou não a fornecerem-nos recursos, de que tanto precisamos para o nosso desenvolvimento a fim de nos atraírem para a sua esfera de influência. É assim tão difícil entender o peso desta nova etapa nas relações de cooperação com os Estados Unidos da América, sem tomar como referencia a sua rivalidade militar, política e económica, com países como a Rússia e China?

NJ

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