Maio 19, 2024

A revolta dos camponeses da região da Baixa de Cassanje contra o regime colonial português, a 4 de Janeiro de 1961, na antiga companhia luso-belga da Cotonang, na província de Malanje, assim como o início da luta armada, a 4 de Fevereiro do mesmo ano, impulsionaram a conquista da Independência Nacional, a 11 de Novembro de 1975, afirmou, quarta-feira, o director nacional de Preservação do Legado Histórico Militar do Ministério da Defesa Nacional e Veteranos da Pátria, brigadeiro Francisco Hebo Zangui Longa “filho do Altíssimo”.

Em entrevista ao Jornal de Angola, o director nacional de Preservação do Legado Histórico Militar referiu que o 4 de Janeiro de 1961 foi a primeira rebelião contra o regime colonial português, iniciada pelos trabalhadores rurais da Companhia Geral de Algodão de Angola (COTONANG), uma empresa angolana produtora de algodão, com participação belga.

O que determinou a revolta, frisou, foi a obrigatoriedade imposta pelo regime colonial da produção da cultura do algodão no território da Baixa de Cassanje, no antigo Reino Imbangala de Cassanje.

“Tratava-se da cultura obrigatória do algodão, numa comunidade de camponeses que, até então, vivia da produção agrícola”, explicou o responsável do Ministério da Defesa Nacional e Veteranos da Pátria.

“Os trabalhadores da Baixa de Cassanje eram cidadãos considerados indígenas e que, além de entregarem uma grande parte da sua colecta de algodão às autoridades coloniais, eram obrigados a pagar um imposto de captação”, disse.

 Crime contra a Humanidade

Francisco Hebo Zangui Longa “filho do Altíssimo” lembrou que os massacres do 4 de Janeiro de 1961 podem ser considerados um crime contra a Humanidade.

“O violento massacre perpetrado pelo exército colonial português contra as populações da região que abrange as províncias de Malanje e Lunda-Norte, com bombas de Nepalm, matou camponeses indefesos que reivindicavam por um preço justo da venda do algodão”, explicou.

Milhares de pessoas,  entre crianças, mulheres e velhos, foram vítimas da repressão do exército português.  Tendo sublinhado que com aquele acto bárbaro, o povo angolano entendeu que era chegada a hora de partir para acções que visam se libertar da opressão colonial.

Homenagem condigna

O brigadeiro do Exército lembrou que para homenagear condignamente a data, estão agendadas, em todo o país, várias actividades, com destaque para palestras, actividades políticas, culturais, desportivas, recreativas, conferências, debates radiofónicos e televisivos, entrevistas, visitas guiadas a locais históricos, convívios e confraternizações com os antigos combatentes e veteranos da Pátria e familiares de combatentes tombados ou perecidos.

Francisco Hebo Zangui Longa “filho do Altíssimo” informou que entre os homenageados destaca-se o nome do nacionalista Rosário Neto, um dos grandes impulsionadores e organizadores da revolta dos camponeses da Baixa de Cassanje.

Constam ainda da lista Francisco António Mariano e o soba Teka Dya Kinda, sem esquecer João Francisco Pedro “Karitete” e Filipe Ndala, conhecido por soba Kassanje.

O brigadeiro Francisco Hebo Zangui Longa “filho do Altíssimo” sublinhou que o 4 de Janeiro de 1961 surgiu em homenagem aos milhares de angolanos massacrados na mesma data, em 1959, em Leopoldville, actual Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, que a partir daquele território, realizavam acções políticas contra a ocupação colonial portuguesa.

“Filho do Altíssimo” considerou ainda que o 4 de Janeiro de 1961 foi uma acção do nacionalismo angolano, sem cores políticas nem distinção regional, linguística, religiosa ou racial, mas sim um movimento de todos aqueles que amam o país, de modo a viver na diversidade.

“O país vive, hoje, momentos singulares de paz efectiva, depois de longos anos de uma guerra fratricida que terminou sem vencidos e nem vencedores. As lições amargas decorrentes do fatídico conflito armado devem manter-nos unidos, em torno de um objectivo comum que se resume no desenvolvimento sustentável de Cabinda ao Cunene e do Lobito ao Luau”, apelou.

 Breve história

A província de Malanje foi, no tempo colonial, a maior produtora de algodão do país. A Baixa de Cassanje, região que abarca os municípios de Caombo, Marimba, Kunda-dya-Base, Quela e Massango, notabilizou-se pela quantidade e qualidade de algodão que colocava no mercado internacional.

Até 1961, a região era habitada por 150 mil pessoas e os campos de algodão tinham quase 85 mil agricultores e respectivas famílias, algumas provenientes de outras zonas, obrigados a cultivar e vender o algodão a comerciantes portugueses.

Segundo historiadores, a revolta da Baixa de Cassanje começou em Outubro de 1960, quando os camponeses se recusaram a receber sementes para plantarem em Janeiro.

A 4 de Janeiro tem lugar a Revolta da Baixa de Cassanje, com a participação de milhares de trabalhadores dos campos de algodão da companhia luso-belga Cotonang.

As duras condições de trabalho e de vida e a constante repressão foram os principais factores que deram origem à sublevação. Os trabalhadores decidiram fazer greve e armaram-se de catanas e canhangulos (espingardas artesanais). Em resposta, a força aérea portuguesa lançou bombas incendiárias provocando milhares de mortos.

Memorial na Baixa de Cassanje

Quanto à construção de um Memorial na Baixa de Cassanje, o director nacional de Preservação do Legado Histórico Militar avançou que os estudos encontram-se bem avançados e tão logo estejam disponíveis os orçamentos previstos, erguer-se-á o tão esperado Memorial, em homenagem aos nacionalistas angolanos tombados a 4 de Janeiro de 1961.

A construção do Memorial, acrescentou, está salvaguardada no Despacho nº 0718/ 2021, de 13 de Setembro, exarado pelo ministro da Defesa Nacional, Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, que orienta o levantamento dos locais e sítios de interesse histórico-militar, para se erguer Monumentos e Memoriais em honra às figuras nacionais ou estrangeiras que deram o seu melhor em prol da Independência Nacional e no pós-Independência.

 Comemorações

Para este ano, as comemorações dos 63 anos do massacre perpetrado pelo exército colonial português na Baixa de Cassanje decorrem sob o lema “Com o espírito do 4 de Janeiro, Antigos Combatentes unidos rumo ao Desenvolvimento do país”. O acto central decorre, hoje, no município de Xá-Muteba, província da Lunda-Norte.

JA

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