Abril 25, 2024

Situação financeira causou clima de tensão na empresa, agravado pelos atrasos salariais que já contabilizam pelo menos três meses. Trabalhadores alegam existir um plano para deixar cair a Movicel que, nos últimos cinco anos, contabiliza perdas de 56,7% dos clientes.

A empresa de telefonia móvel Movicel está a desmoronar como um castelo de areia, em consequência da significativa quebra do número de clientes, atribuída à baixa qualidade do seu serviço oferecido.

Embora apresente planos comerciais de internet e chamadas considerados “económicos”, fontes próximas da empresa contam que há três anos, a Movicel deixou de fazer investimentos nas infra-estruturas fundamentais para assegurar a qualidade do sinal e dos serviços. A situação terá comprometido o relacionamento com os prestadores de serviços, como por exemplo as empresas de segurança que guardavam os sites (antenas de telecomunicação) e a entidade responsável pelos geradores que garantem o funcionamento dos sites, o que tem levado à vandalização recorrente das infra-estruturas.

Sem qualquer agente de segurança, os marginais roubam os cabos de electricidade e outros de telecomunicação. Em alguns casos, a empresa tem feito a reposição dos materiais, mas, pelo facto de não existir segurança, os sites voltam a ser vandalizados e ficam fora de serviço.

Um engenheiro da operadora explica que os sites espalhados pelo país que, nesta altura, têm segurança são apenas aqueles que partilham com a concorrente Africell.

A situação financeira degradada da operadora não se alterou mesmo com a entrada, no ano passado, do Instituto Nacional de Segurança Social na estrutura accionista com 51%. A empresa já se viu até forçada a mudar a sede de um dos centros empresariais mais caros do país, o Belas Business Park, no Talatona, para o condomínio Rosalinda, no Futungo. E tem estado de mãos ata- das na continuidade de pagamento de salário, quando já estão contabilizados três meses que os funcionários não recebem os ordenados.

O clima de insatisfação e tensão é notável nas lojas, incluindo na sede da empresa. Funcionários queixam-se de dificuldades para sustentarem as famílias, havendo casos de alguns que foram despejados por não pagarem as rendas de casa e tiveram os filhos expulsos das escolas por falta de paga- mento das propinas. Sem qualquer informação prestada pela administração sobre o atraso salarial, os funcionários afirmam estar meio impossibilitados de paralisar pelo facto de o sindicato ter sido desfeito, após a greve de 2018, o que poderá causar represálias para os que eventualmente pensarem agir neste sentido. “A empresa já não tem um sindicato que possa marcar greve, o que podemos fazer é uma paralisação conjunta, mas existe o receio de represálias, visto que, nestas situações, há sempre os colegas com receios de perder o emprego”, explica um trabalhador da operadora.

Funcionários alegam também que razões políticas terão motivado “um plano para a queda econsequente falência da Movicel, por não entenderem o facto de a empresa não efectuar investimentos nas infra-estruturas existentes que podiam alavancá-la através da melhoria da qualidade dos serviços, influenciando o retorno e conquista de clientes.

EMPRESA PERDEU MAIS DE METADE DE CLIENTES

Desde 2018 até ao terceiro trimestre de 2023, a Movicel perdeu 1,383 milhões de clientes, ou seja cerca de 56,7% dos utentes deixaram de usar a rede de telefonia. Dos 2,437 milhões de clientes anteriores, a empresa agora tem apenas 1,054 milhões, conforme indicam cálculos do Valor Económico, baseados nos dados do Instituto Angolano das Comunicações (Inacom).

A empresa deixou de ser a segunda maior, em termos de clientes, ficando na terceira posi- ção, com uma quota de mercado de somente 4,1%. Acabou superada pela Africell, mesmo sem grandes infra-estruturas e com quase dois anos de operação, que já detém 24,1% da quota de mercado com 6,231 milhões de clientes. Com 18,564 milhões de clientes, que representam uma quota de 71,8%, a Unitel mantém-se líder à distância.

A administração da Movicel não aceitou responder ao Valor Económico a propósito da situação em que a empresa se encontra.

FORÇADA A PARTILHAR ANTENAS

Fonte da Movicel revela que a empresa foi forçada a partilhar as suas infra-estruturas com a Africell, apesar de não o ter desejado. A primeira empresa de telefonia móvel do país, oriunda da pública Angola Telecom, foi a única que fez a partilha, uma vez que a Unitel exigiu um preço que a Africell se recursou a pagar.

A expansão da operadora norte-americana tem sido assim apoiada nas infra-estruturas da Movicel, que conta com cobertura nacional. Curiosamente, no primeiro ano de operação, a Africell ultrapassou a Movicel na quantidade de clientes, assumindo a segunda mais quota do mercado.

Valor Económico

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