O novo comunicado de Delcy Rodríguez, enquanto presidente interina da Venezuela, soa moderado, quase conciliador: um “convite” aos Estados Unidos para construir uma agenda de cooperação, baseada num relacionamento “equilibrado e respeitoso”. No papel, a mensagem tenta transmitir maturidade diplomática e abertura ao diálogo. Na prática, revela algo mais profundo: a urgência de um regime pressionado por isolamento, crise económica crónica e perda de margem de manobra internacional.
A resposta de Donald Trump corta esse verniz diplomático sem cerimónia. Ao afirmar que os EUA precisam de “acesso total” ao petróleo e a “outras coisas” para “reconstruir o país deles”, Trump não fala como parceiro, mas como credor geopolítico. É a lógica nua da realpolitik: cooperação, sim, mas com condições claras e assimétricas. Não é ajuda desinteressada; é transação estratégica. Washington não entra para salvar regimes, entra para garantir interesses.
Este desencontro de discursos é revelador. Caracas fala a linguagem do multilateralismo clássico, da soberania e do respeito mútuo. Trump responde com a gramática do poder: recursos naturais, acesso estratégico e influência direta. São dois mundos a falar por cima um do outro. A Venezuela quer aliviar sanções e ganhar oxigénio político; os EUA querem garantir energia, influência regional e um reposicionamento num continente onde a China e a Rússia já não são meros figurantes.
O petróleo venezuelano é o elefante na sala. As maiores reservas do mundo continuam lá, intocadas ou subexploradas, enquanto o país afunda em colapso institucional. Para Washington, ignorar esse ativo seria ingenuidade estratégica. Para Caracas, negociá-lo é caminhar numa linha perigosa entre pragmatismo e dependência. A promessa de “reconstrução” pode facilmente transformar-se numa nova forma de tutela externa, ainda que embrulhada em acordos e investimentos.
Há também um cálculo político interno. Trump fala para o seu eleitorado: firmeza, negócios claros, nada de romantismo diplomático. Delcy fala para dentro e para fora: tenta mostrar controlo, abertura e normalidade institucional. Ambos fazem política, não caridade. E ambos sabem que a Venezuela, fragilizada, já não negocia em pé de igualdade.
O futuro desta aproximação dependerá menos das palavras e mais da correlação de forças. Cooperação real exige instituições funcionais, previsibilidade e confiança, três coisas escassas na Venezuela atual. Sem reformas internas sérias, qualquer “agenda conjunta” corre o risco de ser apenas uma pausa tática, não uma viragem estratégica.
No fim, a questão central mantém-se brutalmente simples: quem define os termos da cooperação? Quando um lado pede respeito e o outro exige acesso total, o equilíbrio já nasceu torto. Na geopolítica, convites feitos em situação de fraqueza raramente resultam em parcerias simétricas. Resultam em acordos. E acordos, quando mal negociados, cobram-se durante décadas.
CK

