Maio 19, 2024

 O Fórum Económico Angola – Brasil (FEAB), realizado sexta-feira (25),que juntou mais de 500 empresários, entre angolanos e brasileiros, marca o início do relançamento da parceria estratégica em diversas áreas de cooperação para os dois países, considera a classe empresarial.

Sob o lema “Relançamento da parceria estratégica entre Angola e Brasil”, o evento enquadrou-se na primeira visita oficial do Chefe de Estado brasileiro, Lula da Silva, num país africano, desde a sua reeleição como Presidente da República Federativa do Brasil.

Segundo o presidente da Agência de Promoção de Exportação e Investimento (APEX) do Brasil, Jorge Viana, a realização do FEAB inaugura uma nova fase para o relançamento da cooperação socioeconómica para ambos os países, abrindo oportunidades para a classe empresarial investir em Angola e vice-versa.

A interacção entre os investidores e governantes angolanos e brasileiros nesse fórum serviu para identificar as reais soluções que poderão ser adoptadas para que Angola deixe de gastar, por exemplo, mais de dois mil milhões de dólares norte-americanos na importação de bens alimentares do Brasil.

De acordo com Jorge Viana, o evento serviu, igualmente, para perceber que Angola é um dos poucos países do mundo com auto-suficiência de energia eléctrica, que se destaca por uma matriz energética virada para as energias renováveis, um modelo que muitos países africanos não têm.

Para o responsável, essa realidade, que contou com a contribuição do Brasil na construção de infra-estruturas eléctricas angolanas, abre grandes oportunidades para instalação de um verdadeiro pólo de desenvolvimento em Angola e exportação de energias renováveis.

Apontou também o potencial da mineração angolana como outra área que os empresários brasileiros podem explorar para a transformação de fertilizantes, que poderão ser utilizados a nível nacional e exportados para os países vizinhos e para o Brasil.

Com essas potencialidades e oportunidades de negócio, o líder empresarial garantiu trabalhar no sentido de mobilizar investidores brasileiros a realizarem os seus projectos em Angola, implementando acções concretas que estejam alinhadas com a diversificação económica do país.   

Classificou Angola como “o país mais brasileiro em África” e o Brasil como “o país mais africano no resto do mundo”, devido os laços de irmandade e amizade que nutre as duas nações ao longos dos anos.

Por isso, o presidente da APEX assegurou que os empresários brasileiros vão lutar para que as relações entre Angola e Brasil, que nos últimos anos registaram um abrandamento, não voltem a “esfriar”, reconhecendo que o seu país enfraqueceu a cooperação bilateral com um país onde o Brasil “nunca teria saído”.

Angola abre portas para “alojar” investidores

Em função da disponibilidade dos empresários brasileiros, o presidente da Agência de Investimento Privado e Promoção das Exportações (AIPEX) de Angola, Lello Francisco, reiterou que o país está de “braços abertos” para receber todo tipo de investimento, tendo as condições criadas para albergar os potenciais investidores.

Convidou os empresários a investir em todos os sectores capazes de contribuir para a diversificação da economia nacional, com realce para o agronegócio, a indústria e processamento alimentar, indústria farmacêutica, saúde e infra-estruturas.

Sublinhou que o Executivo angolano está comprometido com a diversificação da economia e tem trabalhado na criação de melhores condições possíveis para facilitar as actividades das empresas e dos investidores que pretendem operar em Angola.

Recordou ainda que, nos últimos cinco anos, o Executivo implementou um conjunto de medidas para a reforma da estrutura macroeconómica do país, com destaque para a melhoria do ambiente de negócios, incentivos fiscais, simplificação e desburocratização dos serviços da administração pública, liberalização do mercado cambial, entre outras acções para atracão do investimento privado.

Fez saber que, anualmente, Angola importa do Brasil bens alimentares no valor de cerca de dois mil milhões de dólares norte-americanos, com um peso significativo para a proteína animal, frangos, suínos, gorduras vegetais e cereais, produtos que podem ser produzidos localmente.

Acrescentou que os produtos provenientes do Brasil representam cerca de 5% do volume de importações de Angola, que também importa equipamentos para o sector agrícola, para além de outras maquinarias.

Por conta disso, adiantou, o Governo angolano pretende atrair investidores brasileiros para potenciar a produção local, com destaque para frangos e suínos, contando com parcerias de empresas angolanas.

Destacou que os programas gizados pelo Executivo angolano para a produção de grãos em grande escala e proteína animal, nomeadamente o Planagrão e o Planapecuária como os planos que podem beneficiar muito com a experiência e o vasto conhecimento brasileiro.

Tendo em conta o potencial agro-industrial brasileiro, o presidente da AIPEX disse que é possível tirar muitas lições para replicar a experiência do processo de diversificação económica do Brasil em Angola, sobretudo no domínio do agronegócio.

Com isso, o responsável augurou por um aumento das empresas brasileiras no mercado angolano, bem como o incremento do fluxo de produtos e serviços angolanos no Brasil, numa relação de dois sentidos mutuamente vantajosos.

Apesar do volume de investimentos do Brasil serem ainda incipientes, Lello Francisco reconheceu que as empresas brasileiras têm investido no país em sectores como construção, energia, agricultura e serviços diversos.

Quanto ao Fórum Económico Angola – Brasil, o responsável afirmou que o certame permitiu a troca de experiências entre a classe empresarial dos dois países, assim como desenvolver sinergias para a realização de negócios.

Conforme a fonte, o evento aconteceu num momento, particularmente, desafiante para maior parte dos países do mundo, devido  o impacto negativo da pandemia Covid-19 e as consequências da guerra Rússia – Ucrânia.

Apontou que esse cenário desafia os países a alterar significativamente a ordem económica e geopolítica global, bem como reorientar o comércio global, afectar a disponibilidade de energias, reconfigurar as estratégias de abastecimento e a fragmentação de redes de pagamentos internacionais.

Nesse contexto, avançou, as relações Sul-Sul (Sul Global) entre as economias são fundamentais, cujo Brasil pode desempenhar um papel de liderança neste mercado.

Durante o Fórum, os participantes reflectiram em torno dos temas “Agricultura e segurança alimentar”, “Infra-estrutura e mineração”, “Saúde, Educação e desenvolvimento humano” e “Transição energética”.

Para o início do relançamento da cooperação entre os dois países, o acto de encerramento do Fórum Económico Angola – Brasil foi marcado pela assinatura de um acordo de intercâmbio denominado “Plano de acção 2023/2025”, enquadrado na cooperação técnica e de desenvolvimento de regiões irrigadas e políticas de apoio à agricultura familiar no Sul de Angola.

De concreto, trata-se do “Programa do Vale do Cunene”, uma iniciativa que tem como beneficiários directos a população desta localidade semidesértica, que vai contar com a experiência vivida pela população do Vale de São Francisco, no Brasil.

O respectivo acordo foi assinado pela directora-adjunta da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, Luísa Lopes da Silva, e pelo director do Gabinete de Estudo e Estatística do Ministério da Agricultura e Florestas de Angola, Anderson Jerónimo.

Para além disso, o acto de encerramento do Fórum ficou, igualmente, marcado pelo descerramento da placa alusiva à inauguração da Câmara de Comércio Angola-Brasil (CCAB), efectuado pelos dois Presidentes, João Lourenço e Lula da Silva, respectivamente.

Potencial económico do Brasil

O Brasil possui a maior economia da América Latina, para além de estar entre as 15 maiores economias do mundo, tornando-se num dos maiores produtores e exportadores de produtos agrícolas, nas últimas duas décadas.

A economia brasileira apresenta um elevado índice de diversificação, com preponderância nos sectores da indústria transformadora, agronegócio, farmacêutico, automobilístico, electrónico, energético, têxtil e serviços.

Em termos numéricos, a indústria brasileira representa cerca de 21.4% do Produto Interno Bruto (PIB), responde por 70.1% das exportações de bens e serviços, 69,2% do investimento empresarial em pesquisa e desenvolvimento, 33% das receitas tributárias e 20,4% de emprego formal.

Em menos de três décadas, o Brasil deixou de ser um país importador de alimentos e passou a exportador líquido, com uma agricultura assente na produção de grãos e proteína animal, responsável por superavites sucessivos na sua balança comercial.

Apesar desse potencial, o investimento privado de empresas brasileiras em Angola, nos últimos cinco anos, foi orçado em apenas cerca de 10,108 milhões de dólares (um dólar actualmente vale a 834,9 kwanzas), valores considerados “poucos significativos”.

De acordo com dados da AIPEX, esse investimento foi feito em sectores como serviços e construção civil, nas províncias de Luanda, Benguela e Cabinda.

ANGOP

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