3 de Julho, 2026

O reordenamento do comércio informal em várias ruas, a limpeza periódica dos mercados e das praias, bem como uma maior fiscalização reduziram significativamente a presença de lixo e de sacos de plástico em locais onde anteriormente se acumulavam grandes quantidades de resíduos, embora o uso deste material ainda seja muito utilizado pelos cidadãos.

Durante uma ronda feita pela equipa do Jornal de Angola em algumas das artérias da capital do país, por ocasião do Dia Internacional sem Sacos de Plástico, assinalado hoje, foi possível constatar a presença de poucos sacos de plástico espalhados pelas ruas, um cenário contrário ao registado nos anos anteriores.

Apesar dos avanços registados na limpeza urbana, comerciantes e consumidores reconhecem que ainda há um longo caminho a percorrer para reduzir a dependência das pessoas aos sacos descartáveis.

Suzana Monteiro, comerciante de sacos de plásticos a grosso para revendedoras há mais de um ano, no mercado do São Paulo, explicou que o material continua a ser indispensável para o exercício da actividade, considerando que o seu descarte deve ser feito de forma correcta.

“Os sacos de plástico ajudam nas compras, conservação dos produtos frescos e, também, são usados para colocar o lixo. Após o uso, eles devem ser jogados nos contentores de lixo e não no chão ou em qualquer lugar para não poluir o ambiente”, alertou.

A comerciante defendeu, igualmente, que o Executivo disponibilize embalagens apropriadas e intensifique a divulgação da legislação sobre a redução do uso de plásticos, de modo a ter um país mais sustentável.

“Já ouvi falar do Plano de Acção Nacional para a eliminação progressiva de plásticos de utilização única, mas ainda há pouca informação. Se houver sacos adequados para substituir os de plástico, será mais fácil deixar de os utilizar”, referiu, acrescentando que muitos comerciantes ainda desconhecem a referida legislação e precisam de maior informação para se adaptarem às futuras exigências.

Por sua vez, a consumidora Susana Canuela, residente no município de Talatona, revelou que procura reaproveitar os sacos de plástico antes de os descartar.“Guardo os sacos para voltar a utilizá-los nas compras ou para transportar outros objectos. Não deito fora de imediato quando ainda podem servir”, explicou. Para a cidadã, é necessário sensibilizar mais a população sobre a importância de conservar e reutilizar os sacos, evitando o seu abandono nas ruas e nas valas de drenagem.

Sobre a data
O Dia Mundial sem Sacos de Plástico visa sensibilizar a população global para os impactos ambientais causados pelo uso excessivo de sacos de plástico, que representam uma das maiores ameaças à sustentabilidade do planeta.

O tema escolhido para este ano é “Libertação dos plásticos de uso único: Rumo a um futuro sustentável”. Em Angola, o Ministério do Ambiente tem promovido campanhas educativas e a implementação de políticas públicas que incentivem a redução do uso de sacos de plástico, em conformidade com as metas de protecção ambiental e de desenvolvimento sustentável.

Reflexão em torno dos prejuízos

O presidente da Organização Minuto Verde (OMV) exortou à reflexão sobre os prejuízos causados pela utilização excessiva de plásticos de uso único, particularmente os sacos, por estes representarem a principal fonte de poluição dos ecossistemas terrestres, fluviais e marinhos no mundo.

Rafael Lucas referiu que a adopção de hábitos mais sustentáveis contribui para a protecção do ambiente e para a melhoria da qualidade de vidas das comunidades.“Esta data constitui um importante momento de reflexão sobre os impactos ambientais, tendo em conta que os sacos de plástico trazem prejuízos de centenas de anos, acumulando-se em rios, praias, oceanos, valas de drenagem, o que agrava as inundações e a mortalidade de diversas espécies animais que os usam como alimentos”, disse.

De acordo com o ambientalista, uma das formas de vencer o desafio passa por uma atenção especial de gestão de resíduos plásticos, com o envolvimento massivo das autoridades, empresas, organizações da sociedade civil e dos cidadãos singulares, uma vez que se regista insuficiências de mecanismos de recolha selectiva de lixo, um crescimento urbano exponencial e um consumo excessivo de sacos de plástico.

“A separação adequada dos resíduos, participação em campanhas de limpeza por parte dos cidadãos e sessões regulares de sensibilização em torno da importância dos cuidados ambientais, podem gerar impactos positivos significativos para esta luta”, referiu.

Especialistas defendem maior consciência ambiental


O uso indiscriminado de sacos de plástico continua a representar um dos maiores desafios ambientais em Angola, alertaram, ontem,alguns ambientalistas, para quem, além da poluição dos ecossistemas, os resíduos plásticos comprometem, também, a saúde pública e evidenciam a necessidade de uma mudança de comportamento por parte da sociedade.

O presidente da Fundação Nação Verde, Nuno Cruz, afirmou que, apesar de serem utilizados por poucos minutos, os sacos de plástico podem permanecer no ambiente durante centenas de anos, acumulando-se em ruas, rios, praias e oceanos.

Segundo o ambientalista, em várias cidades angolanas estes resíduos obstruem sistemas de drenagem, agravando as inundações na época chuvosa e favorecendo a proliferação de mosquitos.

O especialista alertou, ainda, que os plásticos se degradam lentamente, transformando-se em microplásticos que contaminam os solos, a água e entram na cadeia alimentar, colocando em risco a fauna e, potencialmente, a saúde humana.

Para inverter este cenário, Nuno Cruz defende que a gestão dos resíduos deve ser uma responsabilidade partilhada entre cidadãos, escolas, empresas, instituições públicas e organizações da sociedade civil.

“Os sacos de plástico são altamente prejudiciais ao meio ambiente, porque são derivados do petróleo e não biodegradáveis, por isso, proteger o ambiente não deve ser responsabilidade exclusiva do Estado, mas um dever de todos”, disse.

Entre as iniciativas desenvolvidas pela Fundação Nação Verde destaca-se o projecto“ Recicla+ meu resíduo, minha responsabilidade”, que promove a economia circular através da instalação de eco-pontos, campanhas de educação ambiental, limpezas comunitárias e programas de sensibilização em escolas, empresas e comunidades.

Alertas
De acordo com o consultor ambiental da empresa Lespambiente, Pinto Fiel, o uso excessivo de sacos de plástico provoca poluição visual, degradação ambiental, destruição da vida marinha e contaminação dos solos e da água. A proliferação destes resíduos,acrescentou,favorece,ainda, a disseminação de doenças e afecta a cadeia alimentar.

Sobre a responsabilidade no uso de materiais recicláveis, Pinto Fiel defendeu que a sustentabilidade depende da soma das boas práticas individuais. “O exercício colectivo resulta da adopção de comportamentos responsáveis por cada cidadão”, afirmou.

O consultor destacou ,também, que a Lespambiente tem apoiado iniciativas de educação e sensibilização ambiental, sobretudo dirigidas às crianças.

Quanto aos desafios, recordou que o Ministério do Ambiente prepara legislação para proibir a produção de sacos plásticos de uso único.

Educação de base
O reforço da educação ambiental na sociedade angolana representa, para o assistente social Manuel Mambo, o meio ideal para criar um mecanismo estrutural para o uso moderado dos sacos de plástico.

Os currículos escolares, afirmou, devem abordar temas relacionados com o meio ambiente, que é o nosso habitat. “Temas sobre educação ambiental deveriam ser abordados nas escolas, desde o ensino primário até ao I ciclo”, afirmou.

Para o psicopedagogo Fernando Salvador, é preciso que se criem mais projectos ambientais capazes de ajudar na preservação do ecossistema. “É preciso que o Ministério do Ambiente implemente programas televisivos para estimular o cuidado do ecossistema”, realçou.

A mudança de consciência, avançou, passa por cultivar o amor pelo ambiente, sem coerção. “Mudar a perspectiva sobre o uso do saco de plástico não é questão de dar ordens às pessoas. Deve ser um processo de reeducação cognitiva, emocional e comportamental”, defendeu.

JA

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