Abril 21, 2024

O jornalista angolano José Ribeiro, afastado compulsivamente da informação e diplomacia, enveredou agora pela escrita, com a publicação do seu primeiro romance, “Assalto ao Palácio da Cidade Alta”, que, garante, não é uma metáfora ao que sucedeu em Angola.

“Estive a trabalhar praticamente dez anos à frente do Jornal de Angola e também estive quase mais de dez anos na diplomacia. E depois da mudança que houve em Angola, fui afastado da comunicação social. Então decidi publicar um romance, uma obra de ficção e que tem muito a ver com aquilo que foi Angola e a relação que tem com vários países e que atravessa principalmente o período da independência até ao dia presente, aos dias de hoje”, disse à agência Lusa.

A substituição de José Eduardo dos Santos na Presidência angolana por João Lourenço foi marcada, entre outros aspetos, pela saída da linha da frente de quadros e personalidades ligadas ao anterior chefe de Estado.

José Ribeiro diz que “a ideia de escrever um romance foi, digamos, potenciada” pelo que lhe aconteceu “depois de ter sido afastado da comunicação social” de uma forma que classifica como “inesperada”.

“Eu permaneci em Angola porque tinha o compromisso de honra do Estado angolano de colocar-me numa embaixada como adido de imprensa e esse compromisso não foi honrado até hoje pelo Estado angolano. Em vez disso passou-me à reforma compulsivamente”, considera.

“Alguns círculos lançaram uma campanha de difamação contra mim, baseada em falsidades. E cheguei a ir responder a tribunal por uma notícia que não fui eu que elaborei nem fui responsável. Perante esses factos eu decidi que não tinha mais nada, que não queriam saber da minha opinião nem das minhas ideias em Angola”, acrescenta.

José Ribeiro decide então fixar-se em Portugal, antiga potência colonial, onde vive desde 2021.

Neste seu primeiro romance, o Palácio da Cidade Alta, enquanto símbolo do poder político, testemunha a infiltração dos que pretendem reerguer o Reino do Congo, entre os refugiados que regressam a Angola, e desafiam o poder instituído pelos Akuaxi.

“Vendo o seu poder ameaçado, os Akuaxi procuram quem os ajude. Mas não encontram. Ninguém mais acredita nos Akuaxi. Todos quantos confiaram nos Akuaxi foram traídos, tanto os que lhes abriram os olhos, para lutarem pela liberdade, como os que os salvaram da morte e os puseram no Palácio da Cidade Alta. Os Akuaxi correm o risco de desaparecer, para sempre, da cidade dos luandinos”, escreve José Ribeiro em “Assalto ao Palácio da Cidade Alta”.

O Palácio da Cidade Alta é um edifício histórico construído originalmente em 1607/1611, inicialmente vocacionado para servir a câmara de Luanda e que entre 1621 e 1630 foi adaptado para funcionar como o Palácio do Governador-Geral, sob a administração colonial de Fernão de Sousa.

Em 1761, durante o governo do Marquês de Pombal, o edifício foi quase completamente demolido e reconstruído no estilo pombalino, mantendo-se assim até aos anos 1940, quando foi alvo de uma reforma.

Ampliado, modernizado e unificado com o Palácio Episcopal e a Casa da Junta Real, o popularmente designado Palácio da Cidade Alta torna-se sinónimo de sede do poder político do território.

Em 1975, com a independência, o palácio que até então tinha sido a sede do Governo colonial, passou a ser a residência oficial do Presidente de Angola.

“Eu gostaria que as pessoas lessem o livro e o interpretassem a partir da história que vem no livro. Se acharem que a sua interpretação é esta ou aquela, eu deixo isso ao critério dos leitores”, defende o autor.

Editado pela Âncora Editora, “Assalto ao Palácio da Cidade Alta”, com 382 páginas, foi lançado em dezembro de 2023.

AO24

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