Junho 14, 2024

O grupo musical Gingas do Maculusso actua, hoje e amanhã, a partir das 22H00, no espaço Casa da Música, em Luanda. Durante as duas noites de espectáculo, o carismático grupo musical feminino traz como convidado especial a estrela cabo-verdiana Grace Évora.

O trio Paula Daniela, Gersy Pegado e Josina Stella tem estado a realizar uma concorrida agenda de shows em alusão à comemoração dos 40 anos de existência do grupo, assinalado este ano. Dentre as muitas aparições, destaca-se na agenda da comemoração o grande show da abertura da décima temporada do projecto Show do Mês, uma produção da Nova Energia, realizado no final do mês de Setembro. O grupo foi igualmente escolhido para encerrar a programação deste ano do tradicional Muzonguê da Tradição, realizado em Outubro, no Centro Cultural e Recreativo Kilamba.         

Para Jersy Pegado, 40 anos de Gingas do Maculusso é um marco que deve ser celebrado efusivamente. A artista contou que nunca projectaram que chegariam tão longe. “Tudo tem sido maravilhoso, e continuamos a dar vida a um projecto que permanece vivo e sempre muito acarinhado pelo público. As pistas de dança não abandonam as nossas músicas, por isso estamos muito felizes por estas quatro décadas e por todo o carinho que temos recebido ao longo destes anos”, disse. A avaliar a importância que hoje ocupam na música nacional, reconheceu ser uma grande responsabilidade saber que são uma marca na cultura angolana, por todo o contributo que têm dado através da música. “Sentimos o peso desta história e não esperávamos que hoje, já senhoras feitas e com famílias constituídas, continuássemos a ser a preferência do público. É óptimo ir a festas, pedidos e eventos infantis e ouvirmos a nossa música a tocar. Sentimos que tudo valeu a pena. Somos muito abençoadas e gostaríamos muito de agradecer aos DJs, rádios e produtores que continuam a tocar a nossa música, que se lembram de nós para os seus eventos”, frisou.

Por outro lado, Gersy Pegado aproveitou o momento para deixar um apelo aos empresários e promotores para que estes possam perceber que em Angola tem muito para ser explorado, frisando que assim como houve uma Rosa Roque que pegou em crianças e fez delas as estrelas que são hoje, existem muitas crianças talentosas pelo país à espera de uma mentora que possa investir nelas. Gersy sustenta que é preciso que haja mais gente a apostar na cultura.

“Nós precisamos de manter viva aquilo que são as tradições e costumes, porque está provado que um povo sem cultura não sobrevive. Portanto, é uma grande responsabilidade que nós estamos aqui a entregar para as mãos dos promotores e aos órgãos de tutela, para darem maior atenção aos músicos e permitir o acesso a verbas. Temos aí mentes brilhantes com inúmeros projectos, mas que não conseguem dar sequência por falta de apoio”, sublinhou. Ao olhar para o passado, disse que repetiria as mesmas escolhas, justificando que tudo aquilo que foi feito foi muito bem feito.

Para Josina, é sempre uma festa e um abraço que é verdadeiro, cheio de respeito e valorização por aquilo que têm feito há quarenta anos.

“Temos estado a perpetuar um grupo que marcou a música angolana. Sentimos  do público esse orgulho pela existência das Gingas do Maculusso”, reconheceu.

Quanto a novos desafios, Paula salientou que as Gingas teriam mil e um projectos, embora reconheça que seja complicado implementar todos.

“O facto é que estamos a viver uma fase maravilhosa. Neste momento estamos a explorar sucessos desta grande obra. Nós queremos palco, um lugar para podermos levar a nossa força e enaltecer o papel da mulher na construção da nação angolana”, manifestou.

Percurso notável

As Gingas do Maculusso nasceram do então projecto Avilupa Kwimbila, sob responsabilidade de Rosa Roque, do qual fizeram parte uma variada lista de artistas e grupos musicais angolanos chamados com frequência para animar e actuar em festividades.O grupo começou o seu percurso em 1983, num dos programas infantis da Rádio Nacional de Angola, sob o comando da jornalista Amélia Mendes.

Tem no seu repertório os discos “Mbanza Luanda”, “Malanje-Natureza e Ritmos”, “Xiyami” e “Muenhu”, e dezenas de canções que estouraram nas rádios e nas pistas de dança de todo o país, como “Kizomba”, “Mbanza Luanda” e “Canta Não Chora”. O grupo gravou igualmente outros temas marcantes, como “Xyame”, “Filhas de África”, “Panguila”, “Kimbange”, “Missosso”, “A Mangonha”, entre outras.

Em 2009, o grupo registou o primeiro momento de ruptura, com a saída da vocalista Patrícia Faria, que optou pela carreira a solo. Mais tarde, saíram Paula, Josina e, por último, Maria João, rompendo o ciclo de sucessos iniciado em 1983. Apesar da ruptura, as integrantes do grupo participaram de alguns eventos juntas sempre que foram chamadas.

Segundo o crítico musical Jomo Fortunato, o surgimento do grupo veio a transformar e dar novo impacto ao panorama musical angolano. “A aparição das Gingas foi uma verdadeira revolução do canto no feminino, numa linha de continuidade do trabalho iniciado pelas cantoras Lourdes Van-Dúnem, Belita Palma, Conceição Legot, LillyTchiumba, Dina Santos, Garda e seu conjunto, Alba Clington, Celita Santos, Milá Melo, Tchinina, Sara Chaves e Conchita de Mascarenhas, vozes que marcaram a história feminina da Música Popular Angolana”, destaca.

Criado por Rosa Roque, Prémio Nacional de Cultura e Artes em 2020, dinamizadora cultural, esta figura distinta da cultura é autora de um livro que aborda o percurso da banda. Paralelamente, Rosa Roque desenvolveu o projecto “Avilupa Kuimbila”, de que resultaram as obras discográficas “Ndolo”, “Estrelas Dispersas”, “Pérola Azul” e “Brincadeira Azul”, todas dedicadas à canção infantil. Realizou o projecto Restauro Musical, dedicado ao resgate de clássicos e ao encontro de gerações da música angolana.

JA

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